Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

VI - UMA PRENDA DE NATAL INESPERADA

A passagem de ano foi, afinal, em Lisboa. Dancei toda a noite para esquecer que não era ali que devia estar e acabou por ser um bom fim de ano.


Tinha recebido uma prenda de Natal surpreendente e que acrescentou uma nova mudança à minha vida. Foi a prenda dos meus pais. Eles vieram falar comigo e disseram-me que os inquilinos da casa que a minha mãe herdara da mãe dela tinham saído e que tinham pensado se eu quereria ser a nova inquilina. Nem queria acreditar que me estavam a propor aquilo. Conseguia imaginar o esforço que o meu pai tinha feito para se convencer a ele próprio de semelhante ideia. A minha mãe também, mas ela sempre se esforçara mais por me ajudar a ser uma pessoa independente, provavelmente a ideia partira dela. Desde os últimos anos do curso nós as duas às vezes falávamos sobre o projecto de eu ter a minha própria casa. A minha mãe costumava dizer-me que, para ela, o tempo em que vivera sozinha, antes de casar com o meu pai, fora uma época importante da vida, aprendera imensas coisas e, sobretudo, o valor da independência e da responsabilidade. Que eu pudesse ter a minha própria casa podia entristecê-la por ser a evidência de que eu tinha crescido e já não era a sua menina, mas também lhe dava prazer, acho que era o prazer de ter cumprido a missão de me conduzir à independência. Nem eu nem ela tínhamos medo de nos perdermos uma à outra, porque há muitos anos que nos sentíamos cúmplices em tantas pequenas coisas. Por isso ela podia oferecer-me aquela casa que a mãe dela lhe tinha deixado e que também já fora, trinta anos antes, o lugar de partida da sua vida adulta. Eu agradeci-lhe, a ela e ao meu pai, do fundo do coração.


Mudei para a minha casa nova em Junho. Tinha sido preciso fazer umas obras que, como é habitual, levaram o dobro do tempo previsto. Mas fiquei com uma casa moderna, com um aspecto novinho em folha que dava gosto ver.


Com a minha mãe e a Antónia divertimo-nos a percorrer quase todas as lojas da cidade para fazer a decoração. Não comprei muita coisa, mas escolhemos imenso, às vezes um dia inteiro de pesquisa rendia apenas uma almofada colorida. A minha mãe era a única que se preocupava com isso, ela não tinha tanto tempo a perder como nós. Comprei uma cama nova, grande, uns sofás confortáveis e uma mesa para a sala, extensível, porque queria dar muitas festas e gostava que houvesse lugar para toda a gente. Ficavam a faltar apenas detalhes, não queria uma casa muito cheia, sempre gostei de ter espaço para me mexer. Além disso a casa não era muito grande, tinha dois quartos e a sala. No outro quarto fiz uma salinha de trabalho, mas com um sofá cama para poder ser quarto de hóspedes em caso de necessidade. A casa tinha ainda uma varanda pequena na sala, que dava para as traseiras dos prédios vizinhos. Nesse lado as casas tinham pequenos jardins no rés-do-chão e havia também um espaço público com uma piscina e um corte de ténis, rodeados por uma esplanada coberta com buganvílias cor-de-rosa, que a partir do fim da Primavera ficaram exuberantes. Esta paisagem dava um tom campestre e tranquilo à vista da varanda, convidava ao descanso e ao romantismo. A pensar nos dias quentes e nas noites de festa mobilei-a com uma mesa redonda pequena e duas cadeiras confortáveis, criando assim um recanto de ar livre para os namorados e os fumadores.


A minha mãe ria-se com os meus projectos de jantares e hóspedes, eu herdara aquele lado dela que adorava ter muita gente à volta e que inventava festas a partir de pretextos mínimos, para grande preocupação do meu pai que preferia o sossego. O meu pai e o meu irmão ajudaram-me com as montagens dos candeeiros, dos quadros e de outras coisas que precisavam de berbequim. Nunca me entendi com esse instrumento.


Fiz a mudança devagarinho, uns dias ficava em minha casa outros dias em casa dos meus pais. Não me apeteciam cerimónias de despedida, no fundo tinha medo de me emocionar, mais com a emoção dos meus pais do que com a minha. Para mim o prazer suplantava as saudades, estava a adorar a minha casa nova, arranjadinha e a cheirar a mobílias novas.


O meu irmão reagiu à minha saída. Começou por reivindicar “o mesmo tratamento”, não percebia porque é que me davam uma casa e a ele não. Foi posto no sítio pelos pais, em uníssono: acaba a faculdade e logo se vê, disseram-lhe. Isto calou-o, porque o tempo dele na faculdade ameaçava arrastar-se, tinha cadeiras atrasadas suficientes para mobilar uma sala em dia de festa. Depois passou por uma fase de embirração em que percebi que estava escondido o sentimento de se sentir abandonado pela mana. Tentei passar mais tempo com ele, saímos juntos algumas noites, apesar dos nossos grupos de amigos serem bastante diferentes e dificilmente se misturarem. Deixei-o mudar-se para o meu quarto ainda antes de eu ter levado todas as minhas coisas, porque ele sempre cobiçara o meu quarto por ser maior do que o dele e dar para a rua da frente. Era muito melhor para controlar a vizinhança, pois era possível ver alguém interessante a passar para o café e descer a tempo de provocar um encontro “casual”. Ele também gostou muito do meu escritório/quarto de hóspedes, porque achou que era mesmo o ideal para quando precisasse de um sítio discreto para levar alguma namorada. Disse-lhe para nem pensar nisso, mas ele não se ralou, acreditava que quando me pedisse eu não teria coragem para lhe recusar abrigo.


A festa de inauguração da casa nova aconteceu ainda antes de uma parte das mobílias chegar. Tinha a mesa e pouco mais, o que era vantajoso para ter espaço para os convidados se espalharem. Cada um trouxe um contributo doce ou salgado e o resultado foi um autêntico banquete.


Enquanto servia os canapés fui conversando com toda a gente e tive o sentimento engraçado de estar a brincar às casinhas, como fazia com as minhas amigas no meu quarto, no tempo da escola primária. Lembrava-me de ter uma cozinha, pratos, copos, talheres e imensa comida de plástico que servíamos, ora como se estivéssemos num restaurante ora como num chá de amigas. Em qualquer dos casos as bonecas, estrategicamente colocadas ao nosso lado, aumentavam o número de convidados. Agora era a sério, mas curiosamente algumas das convidadas, como a Antónia e duas outras amigas, a Mariana e a Filipa eram as mesmas.


A Mariana tinha trazido um amigo que eu não conhecia e que gostei imenso de conhecer. Pela primeira vez, desde a ruptura com o Zé, senti que me voltava a interessar por alguém. Foi mútuo, porque no dia seguinte o Nuno telefonou-me a agradecer a festa e convidou-me para beber um café, a seguir ao trabalho. E foi o princípio de uma boa amizade que, a pouco e pouco, me foi despertando do estado de hibernação em que eu tinha mergulhado no que diz respeito aos homens. O Nuno era divertido, tinha um trabalho com horários muito liberais e portanto podia aparecer facilmente a meio do dia no colégio para me convidar para almoçar ou acompanhar-me na tarde que eu tinha livre a meio da semana. Além disso, tal como eu, não tinha pressa e, ao contrário da maior parte dos rapazes que conheci, não me pressionava para assumir uma relação mais séria, nem ganhava tiques de namorado possessivo. Limitava-se a aparecer, sem grandes exigências e com muita descontracção. De vez em quando desaparecia o que nem me sabia mal porque ainda não me sentia preparada para compromissos.

Sábado, 10 de Julho de 2010

Capítulo V: O PRIMEIRO ORDENADO

Eu e a Antónia andávamos tristes pela perspectiva de não termos a Sandra todos os dias connosco. Eu acrescentava a esse desgosto a separação do Zé. Outros amigos tinham saído de Lisboa ou de Portugal e os que ficáramos sentíamos a falta deles, mas íamos organizando a nossa vida. A Antónia, que tinha uma profissão mais procurada do que a minha e da Sandra, era engenheira, arranjou emprego numa empresa multinacional e começou a ter horários bastante exigentes. A parte positiva era que tinha muito boas condições de trabalho, pagavam-lhe bem e ela gostava do que estava a fazer. Como o Manuel também arranjara trabalho na área do curso dele – estava na mesma empresa onde já trabalhava antes, mas mudaram-no de departamento e actualizaram-lhe a posição para quadro superior – eles agora tinham muito menos tempo para estarem juntos. De uma forma um bocado paradoxal isso aproximou-os, pareciam uns pombinhos românticos e quando saíamos com o que restava do velho grupo era vê-los a partilharem a mesma bebida ou a dançarem juntinhos. Eu voltava a acreditar que os seis filhos da Antónia iam ser também os seis filhos do Manuel.



Eu tentava compensar a falta de amor com o investimento no trabalho. Os meus alunos eram engraçados e, na maior parte, interessados. Comecei a investigar, mais do que antes, durante o curso, os métodos pedagógicos e a aprofundar os que me davam mais jeito. Por vezes tinha a impressão que encontrara a minha área de trabalho. Aquela de que podia gostar e em que podia vir a tornar-me boa. Mas ensinar, por muito que começasse a agradar-me, não me parecia ser tudo o que queria fazer. Por isso gostava de acumular com as funções de assistente da directora que me permitiam fazer todo um trabalho de organização e relações públicas, para o qual também me sentia bastante motivada.


No dia em que recebi o meu primeiro ordenado convidei o grupo de amigos mais próximo para uma noitada e foi por pouco que não o gastei todo de uma vez. Até a Sandra veio, da sua nova terra lá atrás do sol-posto. Bebemos uns copos a mais, dançámos pela noite dentro e falámos do futuro. Quando cheguei a casa fiquei um bom bocado a olhar para o céu que estava a clarear mas ainda iluminado por uma lua enorme que baixava para o lado do ocidente. Não se ouvia barulho de lado nenhum, o dia começava devagar e eu sentia-me ao mesmo tempo feliz e um bocadinho triste. Feliz porque estava rica, ou quase, comparado com tudo o que tinha recebido até ali pelos meus trabalhos ocasionais, este primeiro ordenado parecia-me milionário. Triste porque numa noite como esta teria gostado de ter alguém ao meu lado, fazia-me falta o Zé, que estava longe, cada vez mais distante.


Tão distante que num dia de Novembro chegou um mail em que ele me contava que se tinha envolvido com uma colega, uma inglesa que estava também a fazer estágio e que o que começara por ser uma atracção mútua entre duas pessoas que estão longe de casa se desenvolvera numa paixão. As palavras da mensagem eram razoavelmente contidas, percebia-se que, para além de não me querer enganar, como dizia, também não me queria magoar, mas não conseguiu evitar que transparecesse na escrita, uma parte do seu entusiasmo com o novo amor. Senti-me irritada com isso e naquele momento não me apeteceu sequer responder. Caramba, o Zé não perdera tempo, nem esperara pela passagem de ano em Nova Iorque, combinada desde a sua partida e que eu esperava com entusiasmo. Ainda bem que eu ainda não tinha conseguido juntar o dinheiro para comprar o bilhete de avião… Mas ao mesmo tempo que a zanga me invadia, no fundo reconhecia que devia ter esperado por isto. Estávamos demasiado longe um do outro e havia tantas coisas novas na nossa vida. Como poderia o passado só por si alimentar esta relação, se nós, como pessoas estávamos a mudar tão depressa? Reconheceria o Zé a sua namorada da Faculdade na “Vice-Directora” em que eu me transformara? E como estaria ele a transformar-se, por acção da vida naquele país onde tudo tinha uma dimensão tão maior do que aqui, no nosso pequeno canto do mundo. Podia ter esperado mais um pouco, para me dar a oportunidade de conhecer Nova Iorque… Fiquei para ali um bocado, a navegar por dentro das recordações, a memória, quando avivada pelas emoções fica tão nítida que até dói e, por momentos, foi como se voltasse a viver as melhores coisas que tivera com o Zé, os momentos de romance, a camaradagem, as viagens que fizemos juntos, as promessas de amor eterno que trocámos ao amanhecer de tantos dias sem noite.


O telemóvel a tocar fez-me voltar à terra. Era a Antónia a desafiar-me para um programa de jantar e discoteca . Foi bom ouvir a voz dela, a minha amiga sempre presente no momento certo. Contei-lhe sobre o mail que tinha acabado de receber e desatei a rir quando ela começou a chamar todos os nomes e mais algum ao Zé. Nós as duas sabíamos que ele não era nada daquilo que ela o estava a chamar, mas aliviava. Durante uns tempos eu precisava de sentir aquela zanga.

Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Capítulo IV: A ESCOLA DA DRA. CELESTE

Andava eu a investigar estágios profissionais e empregos quando uma colega da Faculdade, a Filipa, me telefonou a propor trabalho. Uma amiga da mãe dela tinha um colégio e precisava de uma pessoa de confiança para dar as aulas de português. Ela lembrara-se de mim, porque ela própria não podia, já estava comprometida para ir trabalhar como tradutora numa empresa espanhola, partia daí a poucas semanas. Quando a ouvi dizer que ia para Espanha, pensei que afinal toda a gente estava a ir-se embora, eu acabaria por ser a única a ficar em Lisboa, a guardar a casa? Mas a verdade é que o emprego me dava jeito. Dar aulas era, evidentemente, uma das possibilidades que eu já encarara, mas às vezes pensava em procurar trabalho noutras áreas, na tradução, em editoras, porque não tinha a certeza de apreciar tentar pôr a falar e escrever bem bandos de adolescentes desinteressados. Mas como poderia dizer que não a uma oferta tão directa e que satisfazia as minhas necessidades mais prementes de momento, ganhar a vida e fazer alguma coisa com o meu curso? Assim fui a uma entrevista com a amiga dona do colégio, para ver se ela gostava de mim e me contratava. Secretamente também estava a entrevistá-la, para ver se gostava dela e a deixava contratar-me.
O colégio ficava num edifício agradável em Carnaxide, com um jardim razoavelmente grande, onde cabia um campo de jogos, uma horta pedagógica, alguns canteiros de flores e uma parte empedrada com calçada portuguesa, três mesas de ping-pong e bancos onde os alunos menos desportistas podiam ficar sentados a ver os outros jogar. Lá dentro estava dividido em duas partes, o Jardim de Infância de um lado, apenas com duas salas e o 1º e o 2º ciclo do outro. A dona, a amiga da mãe da minha amiga, que se chamava, muito apropriadamente, Celeste, como a dona do jardim da canção, recebeu-me com simpatia, mas fez-me um entrevista de rigor. Esmiuçou o meu breve curriculum, perguntou-me pelos meus interesses e explorou as minhas experiências profissionais variadas ao longo do curso, especialmente aquelas que diziam respeito a ter dado explicações, em salas de explicações ou em privado. Como é que me sentira e quais os resultados que obtivera com os meus explicandos. Também me mostrou o colégio que estava naquela altura apenas a funcionar como Jardim de Infância e centro de actividades de tempos livres, pois faltava uma semana para as aulas começarem. No fim ficou com o meu curriculum, dizendo honestamente que tinha mais algumas pessoas para entrevistar e que no final desse processo me contactaria, quer decidisse contratar-me quer não. Assegurou-me que seria rápido, pois queria começar o ano lectivo com a nova professora já contratada. Fiquei um bocadinho desiludida com este final. Talvez por ter sido contactada pela minha colega, ficara convencida que só estava eu na corrida, mas agora percebia que não. Duvidava que o meu curriculum, ainda tão pobre, pudesse ser valorizado quando comparado com outros, porventura de pessoas mais experientes.


Porém alguma coisa a Dra. Celeste viu em mim, porque quatro dias depois telefonou-me para me comunicar que o emprego era meu. Como o colégio era pequeno não tinha um horário completo para mim e propôs-me, para além de dar as aulas, ser vice-directora, cargo que, percebi rapidamente, consistia em ser uma espécie de sua assistente pessoal. Talvez tenha sido também uma maneira que encontrou de me manter debaixo de olho e verificar o que eu era capaz de fazer. Para mim acabaria por se revelar uma fonte de aprendizagem extraordinária que me permitiu, para além de aprender a dar aulas, contactar com as exigências relacionadas com a gestão de uma escola. Assim fui contratada simultaneamente como professora e assistente da directora e dona do colégio, com o título pomposo de vice-directora.


Comecei logo a trabalhar, a completar a organização do ano lectivo. Mas o dia de maior impacto foi o dia em que me vi em frente a vinte e três miúdos de onze ou doze anos, a fixarem, expectantes a professora nova. E nova em tudo: nova para eles e nova de idade, como não podia deixar de se notar, apesar de eu tentar disfarçar o mais possível, vestindo vestidos sérios e sapatos de senhora. Faziam-me falta as calças de ganga confortáveis e que eu achava que me ficavam melhor, mas sobretudo faziam-me falta os ténis, aqueles que a minha mãe dizia que eu tinha posto nos pés quando era quase um bebé e nunca mais tinha largado. Lembrava-me de ter ido ao casamento de um primo toda gira, de vestidinho de alças com fitas brilhantes e de ténis matacões, aqueles que davam mais jeito para jogar à bola. Agora sacrificara os ténis aos sapatos de senhora e até me atrevera a pôr uns saltos fininhos que faziam tric-tric quando caminhava.


Naqueles primeiros dias eu e os meus alunos conhecemo-nos, fomos percebendo algumas da forças e das fraquezas uns dos outros. Como me tinham recomendado pus um ar muito sério, cara de poucos amigos mas sem ser hostil. Fazia parte da cartilha da formação pedagógica, tinham-nos dito que era importante sermos assim no princípio, para os alunos perceberem que não estávamos ali para brincadeiras. Sinceramente houve alturas em que me apeteceu desatar a rir com algumas das piadas deles, mas lembrava-me da professora de pedagogia e mantinha-me séria. Nem correu mal, tinha duas turmas, uma do 5º outra do 6º ano, com 23 alunos cada uma. Consegui que me ouvissem e tentei ouvi-los, embora isso a princípio tenha criado uma certa confusão porque se atropelavam a falar, principalmente os mais novos. Estes eram umas criancinhas, mas estavam muito entusiasmados por terem deixado a “primária” e já estarem no 2º ciclo. Nenhum era mal-educado, embora houvesse dois ou três um bocadinho agitados. Um deles, o Pedro, informou-me, expedito, que era hiperactivo, mas não se notou muito naquele primeiro dia. A Directora de Turma dos mais novos veio falar comigo no fim para saber como é que as coisas tinham corrido. Era professora de Matemática e acho que estava um bocadinho preocupada com a novata de Português. Mas duma forma bastante maternal. De resto essa estava a ser uma das características daquele trabalho; as pessoas pareciam interessadas em ajudar-me e desejarem que tudo corresse bem.


Eu sabia que estava na classe alta, quer dizer, havia uma série de problemas que teria se estivesse noutras escolas, por exemplo numa escola pública de algum bairro complicado e que ali não se colocavam. Apreciava isto como dando-me a possibilidade de aprender verdadeiramente a ensinar, em vez de ter de estar preocupada com questões disciplinares ou relacionais. Alguns dos meus amigos tinham-me criticado por aceitar este emprego precisamente por causa disso. Principalmente o Miguel o actor, empenhado em peças de teatro vanguardistas e em levar a arte para as ruas e para o povo, como ele dizia. Disse-me que nunca esperara que eu desistisse tão cedo na vida de mudar o mundo e eu fiquei muito zangada com isso. Tivemos uma discussão muito forte, em que gritámos um com o outro, ele a chamar-me conservadora e betinha e eu a dizer-lhe que se calhar mudava eu mais depressa o mundo a ensinar miúdos da classe média do que ele com as peças incompreensíveis que ninguém via e que quando viam não entendiam. Foi feio, mas no fim a amizade triunfou e pedimos desculpa um ao outro. Eu estava a ser injusta, o Miguel preocupava-se realmente com a cultura para todos, mas ele também, porque não ouviu as minhas razões.


A Sandra compreendeu, porque sabia por experiência própria que entrar para o ensino público no início da vida profissional implicava começar a trabalhar numa terra remota qualquer e ir fazendo aproximações, durante anos, ao local onde queríamos estar. Ela fora colocada numa vila do distrito de Vila Real, em Trás-os-Montes e decidira experimentar. Já lá passara alguns dias, na preparação do ano lectivo e estava a ficar um bocado desanimada. Valeu-lhe, para se aguentar na sua decisão de se exilar durante uns anos, estar cada vez mais apaixonada pelo seu Joan e, relativamente a ele, tanto lhe fazia estar em Lisboa como noutra parte do país. Falavam por Skype e todas as outras modalidades modernas de comunicação e tinham combinado encontrar-se no Ano Novo em Madrid. Já a Antónia também achou que eu podia pelo menos ter experimentado uma instituição social, sem fins lucrativos, mas um dia soubemos quanto é que uma dessas instituições pagava aos seus professores e ela desistiu da sua opinião. Quanto a mim decidi que mais depressa oferecia umas horas de aulas na base do voluntariado do que aceitava aquele pagamento indigno.


OBSERVAÇÃO: O ritmo de publicação tem sido mais lento do que o previsto por falta de leitores. Quando o número de visitas aumentar retomaremos o ritmo anunciado.
A autora

Sábado, 19 de Junho de 2010

Capítulo III: TOMAR DECISÕES

Reencontrei Lisboa em Agosto, deserta e quente. A meia dúzia de pessoas que por aqui habitava no Verão andava com um ar feliz e as noites, mesmo menos frequentadas, eram animadas até de manhã. Aos fins-de-semana ainda ficava menos gente, porque a maior parte rumava para o Sul. Pensei em começar a procurar trabalho, mas não havia nada por onde procurar. Embora o meu dinheiro estivesse à beira de se esgotar, bem poupadinho ainda dava para mais umas semanas, principalmente porque eu não pagava a maior parte das minhas despesas. Só pagava a diversão e eu era capaz de ficar uma noite inteira numa discoteca só com uma bebida. Juntei-me pois aos veraneantes e deixei passar Agosto na boa vida.

Foi em Setembro que as mudanças começaram a anunciar-se e percebi, na pele, que estava noutra fase. Um dia o Zé chegou excitado ao pé de mim, com uma carta na mão:

- Aceitaram-me! Aceitaram-me!

Eu fazia uma ideia do que ele estava a falar, mas não me apetecia nada que aquilo fosse o que eu estava a pensar. Ele tirou-me as ilusões rapidamente: era mesmo. Tinha sido aceite para um estágio numa empresa nos Estados Unidos. Tinha feito o processo de candidatura apoiado por um professor da Faculdade que fora estagiário nessa empresa há anos. Isso aumentara muito a probabilidade de o aceitarem e agora ali estava a carta a dizer que sim, venha assim que puder, contamos consigo.


Fiquei completamente dividida. Era o sonho do Zé, eu queria ficar contente com ele e por ele. Mas aquilo significava que nos íamos separar, não sei por quanto tempo. Pensei para mim própria: “Pára com isso, estás a ser egoísta, acompanha-o na alegria dele, o resto logo se vê”. Mas ele também tinha consciência do que isto representava para a nossa relação e, depois de me abraçar alegremente, disse, com um ar mais sério:


-Vem comigo. Vamos os dois, casamos ou assim, se for necessário, para tu teres autorização de residência. E quando estivermos lá será fácil arranjares emprego, naquela terra é tudo grande e mais fácil.


Ri-me:


- Casamos ou assim? O assim é que deve ser engraçado… Estás mesmo convencido do que estás a dizer? Passou-te pela cabeça agora ou já tinhas pensado nisso antes?


- Para te dizer a verdade já tinha pensado nisso. Mas tu nunca me pareceste entusiasmada com a ideia de ir viver para os Estados Unidos, mesmo que só por uns anos e então não te disse nada. – ficou em silêncio por momentos e depois continuou - Tu és muito importante para mim, gostava mesmo que pudéssemos fazer isto os dois.


- Não sei, Zé. Não sou uma sedentária, tu sabes. Gosto de viajar e atrai-me a ideia de passar uma temporada fora de Portugal. Mas os Estados Unidos? Aquilo é tão longe. Levas uma mão cheia de horas e, o pior, uma carteira cheia de dinheiro para vir a casa. Não estamos a falar de Londres, ou até de Praga, um bocado mais longe. É do outro lado do Atlântico… Não sei. Realmente não tinha pensado nisso. Ou melhor, tinha, mas nunca pus a possibilidade de ser também o meu projecto. Deixa-me pensar.


- Claro que sim. Tens o tempo que precisares. As coisas ainda vão levar pelo menos um mês a ficar prontas para eu poder ir.


Fiquei assustada: um mês? Num mês, aliás, em menos de um mês, eu tinha de decidir se ia para os Estados Unidos com o meu namorado, “casada ou assim” e se deixava a minha vida e a minha gente?


Fui dali falar com a Antónia, a minha amiga que sabe o que quer do seu futuro. Precisava que alguém assim, seguro, me ajudasse a pensar. Ela recusou-se a dar-me opinião concreta sobre o que eu devia fazer. Limitou-se a perguntar-me se eu já tinha colocado essa hipótese antes, quando o Zé andava a tentar conseguir o estágio. Se eu me queria casar já. Quais eram os meus planos antes de o Zé me lançar este desafio. Tive de lhe confessar que andava um bocado perdida e preocupada com isso. Que a única decisão que conseguira tomar até ali fora o compromisso comigo mesma de tentar encontrar os meus verdadeiros interesses e seguir por aí. Ela ouviu-me e no fim observou:


- Pois, este é o projecto do Zé…


Aquilo ficou-me na cabeça. Voltei a concentrar-me no que podiam ser os meus projectos, mas não era fácil. Sentia inveja das pessoas altamente vocacionadas que sabiam desde pequenas que queriam ser isto ou aquilo. Como o nosso amigo Miguel que estava absolutamente empenhado em avançar numa difícil carreira de actor e que dizia que nunca tinha pensado em ser outra coisa.


À noite, em casa, conversei com a minha mãe. Sempre gostara muito das nossas conversas de serão, muitas vezes comigo na cama e a minha mãe sentada à minha beira. Era a hora em que me sentia mais capaz de lhe confiar segredos, de lhe pedir desculpa por alguma parvoíce que fizera ou de lhe contar coisas que sabia que ela reprovava mas que eu precisava que ela soubesse. Tagarelar era uma coisa que nós fazíamos muito durante o dia, ao vivo ou por telefone. Mas conversas sérias eram conversas da noite, conversas de cama, como eu dizia a brincar desde a minha adolescência. Por isso nessa noite pedi à minha mãe para vir para o meu quarto enquanto me despia e me deitava confortável. Contei-lhe a minha conversa com o Zé. Sei que ela ficou em estado de choque, mas a verdade é que se aguentou e manteve a tranquilidade que lhe é característica. Eu sabia que para a minha mãe, pensar na sua menina, a sua única filha a ir para os Estado Unidos, mesmo que fosse só por um ano ou dois era muito difícil. Mas acreditava que ela me amava o suficiente para pôr os seus desejos de lado e se concentrar não só no que eu queria mas também no que seria bom para mim.


- E já tomaste alguma decisão? – perguntou.


- Não, mãe, não sei o que decidir. Estou um bocado baralhada. O que é que eu faço?


Então a minha mãe ajudou-me a ponderar os prós e os contras de ir ou ficar. Conduziu-me pelos meus próprios sentimentos com a segurança de quem me conhece há 23 anos e fez-me parar onde era preciso. Primeiro a questão da minha relação com o Zé que era no fundo o argumento mais forte que me poderia decidir a partir. Depois tudo o que dizia respeito ao trabalho, àquilo que eu podia esperar para mim nesta época da minha vida. E no fim a família e os amigos. O meu pai que estranhou a nossa ausência da sala durante tanto tempo, apareceu na porta do quarto com aquele ar ciumento que põe às vezes, quando nos surpreende nestes colóquios mãe-filha. Decidi contar-lhe do que estávamos a falar, também precisava da opinião dele. E ele disse o que eu sabia que a minha mãe tinha vontade de dizer desde o início da nossa conversa:


- Levar a minha filha para seis mil quilómetros de casa? Mas esse malandro está maluco ou quê? Queria!...


A minha mãe riu-se, aliviada e agradecida ao meu pai por ele ser assim, desbocado e se preocupar tão menos do que ela em proteger a minha autonomia. Naquela noite uma parte de mim sentiu pena de ter crescido, lembrei-me de tantas coisas que fizemos juntos e tive vontade que houvesse ainda muitas outras para fazermos. Quando o meu irmão chegou a casa, tarde como quase todos os dias, foi surpreendido por esta reunião familiar. Primeiro ficou muito espantado, mas rapidamente, com o sentido prático que lhe é peculiar, decidiu:


- Que maravilha, assim já tenho onde ficar quando for à América. E posso ficar com o teu quarto? A tua varanda tem melhor vista do que a minha.


- Alto lá, menino, ainda não me fui embora. E pára com isso, julgas que eu não sei que sem mim vais andar a chorar pelos cantos, de saudades.


A conversa ia acabando numa luta de almofadas que os pais impediram por causa dos vizinhos.


Ainda falei com mais alguns amigos, mas na verdade a minha decisão já estava a ficar clara. Discuti um pouco comigo própria porque me interrogava se estaria a arriscar pouco, a recusar uma oportunidade muito rica, a ser convencional em vez de disponível para a vida. Mas eu era uma mulher de paixões. Geralmente fazia as escolhas ligando-me àquilo que sentia. E o que eu sentia agora era que o meu entusiasmo não era suficiente para me fazer pôr de lado as hesitações.


A conversa com o Zé teve um princípio doloroso. Ele ficou sinceramente decepcionado quando lhe disse que decidira não ir com ele. Eu também estava triste, detestava a ideia de nos separarmos, agora que íamos ficar muito mais livres, sem maratonas de trabalhos para terminar. Mas, como dizia sempre a Antónia, éramos novos, os projectos entusiasmavam-nos e pouco depois já estava a ajudá-lo a preparar algumas das coisas da lista enorme que ele organizara para não se esquecer de levar nada. E combinámos que eu iria ter com ele no final do ano, para ver Nova Iorque cheia de neve, como aparece nos filmes de Natal. Tencionávamos derreter uma boa parte dessa neve com o nosso amor escaldante, ao rubro depois de tantos meses de ausência.

Mesmo assim, quando nos despedimos, na véspera da partida, abraçámo-nos a chorar que nem uns parvos. O Zé não tinha querido que eu o fosse levar ao Aeroporto, iam lá estar os pais e os irmãos, eram os suficientes para fazer cenas que ele não queria. Por isso jantámos na noite anterior, fizemos amor, chorámos, prometemos que íamos falar todas as noites no Messenger, que íamos lançar uma ponte aérea Lisboa - Nova Iorque e depois fui-me embora para casa, de coração despedaçado, novamente cheia de dúvidas sobre ter tomado a decisão certa.
E foi assim que a minha primeira grande decisão de adulta me fez ficar em Lisboa, meia solteira meia comprometida, a sentir-me desasada, porque há três anos que o Zé fazia parte de quase todos os meus dias, desempregada e à procura de um sentido para a vida.

Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

Capitulo II - AMIGAS EM VIAGEM

Duas semanas depois aterrava em Paris, que ia ser o ponto de partida para uma viagem pela Europa. O bilhete de avião fora a prenda dos meus pais, o financiamento restante era o fruto dos meus trabalhos de dar explicações de matemática a miúdos entediados, fazer babysittings e promoções em hipermercados a iogurtes magros que prometiam “se não ficar satisfeita devolvemos-lhe o dinheiro”.
Éramos um pequeno grupo de três raparigas, eu, a Sandra e a Antónia. Os rapazes, incluindo o Zé, iam juntar-se a nós mais tarde, em Praga e até lá estávamos por nossa conta. Trazíamos na bagagem insistentes recomendações de cuidados, roupas leves destinadas a serem lavadas muitas vezes e duas ou três toilettes especiais para as saídas nocturnas. Trazíamos também fantasias românticas bebidas em livros que falavam de amores e aventuras em Paris e que acrescentavam beleza à Pont des Arts, às Pirâmides do Louvre e a muitos outros locais da cidade. Citávamos Hemingway e o seu “Paris É Uma Festa”, ao mesmo tempo que tínhamos esperança de ver Tom Hanks sair a correr do cálice do Louvre, perseguido por polícias e levando atrás de si a linda Sophie Neveau, a descendente de Jesus Cristo segundo Dan Brown.


Não encontrámos nenhuma destas personagens, mas ainda assim Paris era encantadora. Percorremo-la de uma ponta a outra, almoçámos pizzas e sandes gigantes no Jardim do Luxemburgo, sentámo-nos longamente na Pont des Arts, a conversar e a olhar para o Sena, fomos a umas festas em peniches atracadas que balançavam docemente e vimos as iluminações nocturnas da Torre Eiffel no meio de bandos de turistas. A certa altura ficámos com inveja do ar divertido dos miúdos que faziam acrobacias de skate no Trocadero e conseguimos que nos emprestassem uns para experimentar deslizarmos até lá abaixo, de uma forma muito mais convencional do que eles mas igualmente divertida. Quando passeámos nos Campos Elísios fizemos uma lista das compras que viríamos buscar quando fossemos ricas e guardou cada uma a sua cópia, com o compromisso solene de só voltar a abri-la daí a dez anos, época em que imaginávamos já ter dinheiro para os anéis de diamantes e as malas de mão mais caras do que os nossos bilhetes de avião low cost.


De Paris apanhámos o comboio para Amesterdão, a outra cidade para onde o nosso imaginário nos atraía. Queríamos experimentar o ambiente de liberdade, entrar no mistério enfumarado das coffee shops, dormir nas pousadas da juventude cheias de gente de toda a parte, passear de bicicleta pela borda dos canais, e ficar à noite na Leidsplein a ver os animadores nocturnos comerem fogo, engolirem espadas ou dançarem capoeira ao som de tambores e berimbaus. Eu acrescentava o desejo de visitar a Casa de Anne Frank, museu situado na casa onde a jovem adolescente e a família estiveram escondidos durante uma parte da II Guerra Mundial e de onde foram levados pelos nazis para o campo de concentração onde todos morreram excepto o pai. Quando tinha catorze anos eu tinha encontrado o Diário de Anne Frank nos livros da minha mãe e começara a lê-lo sem saber do que tratava. Para perceber o que estava a ler, o que levara aquela família a esconder-se no sótão secreto de uma casa, com outra família, 8 pessoas a viverem, durante dois anos, confinadas em 46 metros quadrados, sem poderem sair, apenas ajudadas por um pequeno grupo de amigos, tive de pedir explicações aos meus pais e ler outros livros. Assim O Diário de Anne Frank, para além de me fazer chorar muito pela solidão e pela morte cruel daquela rapariga da minha idade, também me conduzira ao conhecimento de uma parte negra da humanidade cuja visão era impossível esquecer. Desde essa altura que eu sabia que a casa-esconderijo tinha sido transformada num museu e desejava visitá-la. Apesar de a Sandra e a Antónia não partilharem este interesse, acompanharam-me e foi uma visita tocante, de onde saímos as três comovidas e convencidas de que era fundamental que a nossa geração não deixasse esquecer esta história e outras mais recentes que revelavam igualmente o melhor e o pior que há nas pessoas.


Quando partimos de Amesterdão para a Alemanha, tínhamos conhecido um grupo de espanhóis ou melhor, de catalães, de Barcelona, que nos convidaram para os visitar no regresso da viagem. Mas nós tínhamos o bilhete de volta de Praga, Espanha não estava nos nossos planos, era demasiado perto de casa e nós queríamos estar longe.


Na verdade às vezes assaltava-nos uma ponta de saudades, mas era passageiro, como uma brisa que refresca um dia de Verão e torna mais agradável o calor. A Sandra podia suspirar pelo seu cão Murphy, mas contava umas gracinhas que a mãe lhe enviara por mail e já estava a rir. A Antónia a certa altura ganhou a mania de procurar pastéis de nata nas pastelarias alemãs. Eu por mim tentava descobrir nas ementas dos restaurantes gambas à guilho, porque me apeteciam aquelas que só o meu pai sabia fazer e às vezes sonhava com o Zé de tal maneira que ficava mais um tempo na cama para prolongar o prazer. Falava com a minha mãe muitas vezes pela net, pois era fácil encontrar computadores com internet grátis, em qualquer dos sítios onde dormíamos. E suspeito que ela, apesar de não dizer nada e se mostrar muito satisfeita por eu me estar a divertir, se mantinha muito mais perto de um computador online do que era habitual. Mas nada disto queria dizer que queríamos regressar, apreciávamos cada dia de uma ponta à outra, levantávamo-nos mais cedo do que quando estávamos em Lisboa e calcorreávamos as cidades com um enorme prazer. Tudo aquilo nos dava uma sensação de liberdade nova na nossa vida que queríamos saborear até ao fim. Éramos três raparigas e fazíamos um sucesso razoável nas pousadas por onde passávamos. Havia sempre alguém interessado em nos mostrar locais menos turísticos Nós, conscientes das recomendações de Lisboa e porque já não éramos adolescentes e também tínhamos alguma sensatez própria, só aceitávamos convites de grupos de pessoas, com idades próximas e em situação semelhante à nossa, de férias por conta própria.


Em Berlim, na Alemanha, visitámos vários vestígios da antiga divisão da cidade em parte oriental e ocidental. À semelhança de outros grupos de turistas ficámos paradas durante bastante tempo, como em vigília, em frente a restos do Muro carregados de graffiti, passámos pelo Checkpoint Charlie e notámos as diferenças ainda visíveis nos edifícios entre os dois lados da cidade. Pela segunda vez nesta viagem confrontávamo-nos com o lado negro e o lado libertador da História. Para nós, tão jovens e desejando tanto acreditar que o mundo é um bom lugar, foram autênticas lições de vida, agora não era como na escola em que nos tinham falado sobre estes acontecimentos através dos livros. Agora os vestígios da violência dos acontecimentos estavam ali à nossa frente e íamos percebendo que havia outros, iguais, muito mais perto do nosso tempo, por isso não podíamos dizer que eram experiências do passado porque não era verdade.


Claro que também aproveitámos Berlim para nos divertirmos. Tinha uma vida nocturna fácil, os autocarros funcionavam toda a noite e houve algumas manhãs de turismo que perdemos porque nos tínhamos deitado demasiado tarde. Compensávamos com tardes intensas em que tentámos não deixar nenhum recanto interessante por visitar.


Na última noite em Berlim, depois de jantar, em vez de partirmos mais uma vez para a discoteca, como nos tinha desafiado um grupo de companheiros de pousada, deixámo-nos ficar numa esplanada do centro, a tomar chá, que as noites de Verão no Norte não são como as nossas e merecem um chá quente mesmo em Julho. Falámos da vida, do futuro e, é claro, de rapazes. A Antónia dizia, com um tom muito confiante, que queria ter meia dúzia de filhos e que isso para ela era mais importante do que tudo o resto, faria o que fosse preciso, como trabalho. Eu respondia-lhe escandalizada que com aquelas ideias ainda arranjava um futuro ao estilo da avó dela, a ficar em casa a cuidar das crianças enquanto o marido ia trabalhar para ganhar a vida. Mas ela não desarmava e continuava a imaginar a casa cheia, a animação dos fins de semana, a carrinha que precisaria de comprar para poder transportar toda a gente. A Sandra fez a pergunta óbvia: o Manuel também tem essas ideias ou não é com ele que vais ter esses filhos todos? A Antónia não se incomodou com a pergunta e continuou o seu sonho, afirmando que se não fosse com o Manuel seria com outro, mas era uma coisa que ainda não tinham falado muito bem, os homens não percebem as coisas como as mulheres e não queria que ele pensasse que ela o queria agarrar ou qualquer coisa do género. Até porque o plano não tinha de ser para já, era uma ideia para o futuro:


- Somos novas, não é? Temos tempo!


Nisso estávamos as três de acordo. E também concordávamos que era engraçado fazer planos para o futuro. Eu tive de confessar que estava um bocado perdida que às vezes me custava ver para além do momento presente e que quando as ouvia, tão concretas a respeito do que queriam, me sentia um bocado anormal.


- Mas tu tens o Zé, pelo menos e respeito dele não estás segura? – perguntou a Antónia.


- Oh, eu gosto muito do Zé, acho que nos damos muito bem, nem imagino ninguém com quem me pudesse entender melhor. Já ando cheia de saudades dele. Mas a verdade é que tenho mais certeza do Zé no passado e no presente do que no futuro. Até agora havia o curso, os trabalhos para ganhar um dinheiro, e pronto. Agora o curso acabou - o meu e o dele – o futuro está em aberto, podem acontecer muitas coisas, não é? O Zé sempre disse que gostava de trabalhar no estrangeiro, eu não sei onde arranjarei trabalho… E não quero que nenhum de nós deixe de fazer o que quer por causa do outro.


- Bom, isso entendo – comentou a Sandra – por isso é que a história do Lúcio me está a passar. Custou-me muito, mas pensando bem apetece-me experimentar outras pessoas. Vocês sabem como eu sempre fui pouco variada, tive um namorado na secundária e agora ele. Esta viagem está a abrir-me horizontes, afinal há imensa gente interessante no mundo.


A Sandra partira para esta viagem em estado de desgosto, porque o Lúcio, o namorado dela nos últimos três anos, tinha terminado o namoro pouco tempo antes, com uma daquelas frases feitas: “não és tu, sou eu” e, passada uma semana, ela encontrou-o numa discoteca atrelado a uma rapariga que tinha aparecido no grupo de amigos deles há pouco tempo e que se dizia admiradora da Sandra. É uma daquelas situações que nos põem à prova, a Sandra aguentou-se bem, aquela viagem connosco estava a ser importante para mostrar ao Lúcio – e se calhar também a ela própria - que não estava dependente dele, mas às vezes ficava um bocado amarga e percebíamos que se interrogava sobre o seu valor. E isso era insensato, porque para além de ser a mais bonita de nós as três, com os seus cabelos louros e os olhos claros que atraíam imenso tanto os homens do sul como os homens do norte, por onde nós agora andávamos a passear-nos, também era muito inteligente e divertida e tinha sempre uma piada pronta para se livrar de embaraços, a ela e a nós, quando estávamos por perto. A declaração de disponibilidade que ela acabara de fazer soara diferente do que tinha expressado até este ponto da viagem, por isso eu e a Antónia olhámos com um ar desconfiado:


- És tu que estás a dizer isso? Estás a pensar em transformar-te numa namoradeira do género experimenta e deita fora? Que bom, fora com o Lúcio, abre-te para a vida.


- Tenho pena, mas acho que isso não conseguiria. Não está na minha natureza, como dizia o escorpião à rã! Mas posso alargar um bocadinho o leque, não acham?


A Antónia riu-se:


- Essa é uma excelente declaração! – e virando-se para mim, coscuvilheira – já sei, foi o catalão de Amesterdão que lhe deu a volta. Lembras-te daquela noite em que ela disse que estava cansada e ficou sentada enquanto nós dançávamos? O Joan também se foi sentar e ficaram montes de tempo na conversa. Eu achei que não se tinha passado nada porque ela veio connosco para o quarto, mas esqueci-me que era a Sandra, ela vai devagar…


A Sandra corou, mas também se riu:


- É esperta a menina. Pois é, o Joan é um amor. Mas não sei… ele não tinha a certeza de conseguir ir ter a Praga por estes dias.


- O quê? – eu e a Antónia exclamávamos as duas em coro, escandalizadas – Tu combinaste que ele ia lá ter e não nos disseste nada? Que raio de amiga és tu?


A partir dali a conversa ficou à volta do Joan e do atrevimento novo da Sandra no que respeita aos homens. Pouco depois fomos para a Pousada. Não foi fácil adormecer, a excitação da conversa tinha-me despertado e pus-me a pensar no que tinha dito. Eu não costumava pensar muito no futuro longínquo, vivia mais à base de dia-a-dia. Até porque tinha esta dificuldade, não sabia bem o que queria da vida. Mas já por diversas vezes me interrogara sobre o futuro da minha relação com o Zé. Não era que eu desejasse a separação, gostava muito do Zé, ele tinha sido o meu companheiro durante quase todo o curso, passámos muito stress dos exames juntos, revimos muitos trabalhos um do outro. Mas sabia que o que eu dissera fazia sentido, agora muitas coisas podiam acontecer, a vida podia levar um para cada lado… Eu não me imaginava a viver nos Estados Unidos e sabia que esse era o sonho do Zé, passar uns anos no país que ele dizia ser o centro do mundo. Como é que seria a minha vida sem ele? Como é que seria a minha vida? Precisava urgentemente de perceber o que me interessava, definir o que era mais importante para mim ou corria o risco de só reagir aos acontecimentos, em vez de os controlar. Comecei a sentir o sono a chegar, os olhos a fecharem-se com o peso destas ideias. Nessa noite sonhei que estava na fila para tirar o bilhete de identidade e que havia um homem à minha frente que nunca mais saia do guichet. Comecei a refilar com ele, era preciso despachar-se, ele virou-se para mim e disse que o problema era que se tinham esgotado os impressos e aconselhou-me a ir-me embora. O sonho acabou antes que eu respondesse, mas na vida real percebi pouco tempo depois que não dava para voltar noutro dia, por muito que eu quisesse que os impressos acabassem ao chegar a minha vez, a vida ia-me obrigar a tomar decisões.


Na manhã seguinte apanhámos mais um comboio, desta vez para Praga e, como combinado, os rapazes estavam à nossa espera na estação com o nome estranho de Nádrazí Holesovice. Foi lindo, andávamos há quase três semanas em viagem e este encontro, tão familiar mas tão longe de casa soube-nos muito bem, às três, mesmo à Sandra que não estava a reencontrar um namorado, apenas amigos. Mas a Sandra estava novamente radiante, o catalão Joan tinha-lhe enviado uma mensagem a dizer que conseguiria ir a Praga, chegava no dia seguinte e já tinham combinado encontrar-se na ponte Carlos, junto ao Portão da Pólvora, do lado da cidade velha.


Portanto foi um grupo divertido e muito amoroso que se passeou por Praga, uma cidade que eu conhecera há bastantes anos atrás, quando fizera uma viagem com toda a família a Praga e Budapeste. Desta vez, em vez do companheirismo dos primos e as pressões culturais dos mais velhos, foi a Praga romântica que me atraiu. Depois da conversa e dos meus próprios pensamentos, na última noite em Berlim, decidi aproveitar ao máximo a companhia do Zé, apreciar o tempo que estávamos a passar juntos. Passeámos de mãos dadas pela cidade, sobretudo por aquela ponte Carlos IV, tão romântica, a calhar para encontros de namorados ou para beijos intensos ao fim da tarde, encostados ao parapeito a olhar para o rio Moldava. Não nos incomodavam muito todos os turistas que ali passavam – e eram muitos, a ponte estava sempre cheia, com gente a passar para cá e para lá. Quando estamos apaixonados ficamos sozinhos em qualquer lado e nós sentíamo-nos reapaixonados, como se os dois tivéssemos tido a mesma visão do futuro e precisássemos de viver tão intensamente quanto possível o tempo presente. Arranjar provisões para tempos de fome, pensava eu, mas nem esse pensamento um bocadinho cínico me impedia de ficar estupidamente romântica a olhar para o Zé enquanto ele dormia ao meu lado, com aquele modo despenteado que tem sempre a dormir.


Antes de regressarmos a Lisboa ainda nos passeámos pela República Checa, por terras que estavam fora dos roteiros turísticos. O Joan tinha estado lá a fazer Erasmus e guiou-nos nessa viagem. Nós tínhamos programado ainda entrar na Polónis, mas entre a perspectiva do desconforto de mais uma viagem de comboio ou conhecer sítios que não veríamos se não estivéssemos com ele, optámos pela segunda hipótese. E foi um cicerone notável, provavelmente porque queria ardentemente agradar à Sandra, por quem continuava encantado. E ela por ele, diga-se em prol da verdade.

Quarta-feira, 2 de Junho de 2010

LUÍSA: Capítulo I - BABY BLUES



Há situações na nossa vida pelas quais esperamos ansiosamente, desejamos que passem depressa e imaginamo-nos cheios de alívio depois de ficarem para trás. Agora já sei que pode não ser bem assim. Porque no dia em que defendi a tese de mestrado e, portanto, acabei o curso, ao contrário do que esperava, saí da faculdade não com o sentimento de alívio que tinha antecipado, mas com um sentimento estranho de tristeza que se prolongou pela tarde. Era uma melancolia que continha um misto de auto-estima arrasada, zanga e apenas uma pitadinha de orgulho.


Na verdade a situação foi dura. Já me tinham avisado, já tinha visto, quando fui assistir à apresentação de amigos, mas por muito que nos tenhamos preparado e mesmo sabendo que é mesmo assim, que vão dizer mal do nosso trabalho, vão “descascá-lo” até quase o reduzir a pó e depois vão sorrir, dizer que estamos aprovados e dar-nos os parabéns, é duro. Quando o arguente começou a dizer tudo o que achava que eu não tinha lido e devia ter lido para ele me poder considerar correctamente informada sobre o assunto apeteceu-me responder se ele achava que a minha vida era só aquilo. Mas respondi, gentil e com a humildade suficiente que ele podia ter razão, mas a verdade é que tinha lido este e aquele autor e que me preocupara em abordar os aspectos que me tinham parecido mais significativos na temática, etc. Por fim consideraram-se satisfeitos com as minhas respostas e, como é da praxe, saí e esperei, com a certeza de que já nada mais podia fazer para alterar a opinião deles sobre mim e o meu trabalho. Reentrei na sala e encontrei um júri transfigurado, com um sorriso amigável que me deu a nota e me felicitou pelo trabalho feito.

Encerrados os rituais recebi os parabéns dos colegas que tinham ido apoiar-me e sai para a rua. A luz forte do sol magoou-me os olhos, depois daquelas horas – pareciam mais do que na realidade tinham sido – no anfiteatro quase sem luz natural. À porta da Faculdade estava pouco movimento de estudantes, pois as aulas já tinham acabado, havia sobretudo carros estacionados e pessoas que passavam. Olhei à minha volta, para o edifício onde tinha passado tanto tempo da minha vida nos últimos anos e muitas recordações boas vieram-me à memória. Mesmo assim a tal sensação estranha de tristeza não me largou. Telefonei ao Zé. Precisava que ele viesse ter comigo para recuperarmos juntos o futuro que parecia que tinha acabado de se fechar naquela sala formal e fria pela mão daqueles senhores com aparência de homens estátua. Ele não me desiludiu. Deu-se conta do meu baby blues e logo pelo telefone começou a destrui-lo:
- O quê? Sentes que o futuro se fechou? Não, meu amor, estás enganada, o futuro abriu-se, estás livre e tens a vida à tua frente. Temos! Estamos juntos e podemos fazer o que quisermos, não há nada a fechar-se nas nossas vidas.
Passado muito pouco tempo estava comigo, andava perto, ele sabia que eu ia chamá-lo no fim daquela prova iniciática. Almoçámos numa esplanada virada para o rio, a minha tristeza a desfazer-se lentamente como se desfaz a neblina em algumas manhãs de Inverno, o Zé a ser o Sol que obriga a névoa a desaparecer, divertido e amoroso como ele tantas vezes sabe ser.


No fim do almoço vieram ter connosco a Sandra e a Antónia, as minhas melhores amigas. A Antónia tinha passado muito recentemente pela mesma experiência de terminar o curso e a Sandra tinha a defesa da tese marcada para a semana seguinte. Quiseram saber todos os detalhes, as perguntas, a nota, o nível de ansiedade que eu tinha vivido… Quem estava mais interessada nesses pormenores era a Sandra, evidentemente, mas tive o cuidado de não acentuar as partes mais dolorosas, para não aumentar o nervosismo dela.
Deixámo-las embrenhadas numa discussão sobre a melhor maneira de fazer a apresentação inicial para impressionar bem o júri e eu e o Zé fomos ter com a minha mãe que estava no trabalho e abraçou a sua menina agora mestra, de lágrimas emocionadas nos olhos e sorriso orgulhoso nos lábios. Telefonou ao pai que estava retido por qualquer razão no aeroporto do Faial, para onde tinha ido há uma semana, em trabalho. Ia chegar umas horas atrasado para o jantar de família que a minha mãe me confessou que tinha preparado em segredo, porque tinha medo que se me dissesse eu me recusasse. Ela tinha um certo trauma relacionado com jantares comemorativos desde que uma vez, há anos, preparara um jantar de família em honra do meu primo Francisco e ele não viera. O jantar fez-se na mesma, sem o convidado principal, divertimo-nos juntos, mas acho que a minha mãe ficou convencida que era má ideia homenagear os jovens da família. Eu gostei da ideia de uma reunião de família para celebrar o fim do meu curso, desde que não me aborrecessem com frases do tipo: “agora é arranjar trabalho e casar” ou “só faltam os netos para a felicidade da tua mãe ser completa”. E continuava a precisar de me animar para espantar definitivamente aquela nuvem que teimava em vir pairar por cima de mim e que tinha a forma da cabeça do presidente do júri.
Desta vez o Francisco veio, vieram também os tios e os outros primos, os habituais das festas da família. A Sandra e a Antónia, como tinham prometido também apareceram, a Antónia com o namorado, o Manuel, outro mestre recente. Bebemos champanhe à minha saúde e ao futuro e isso agradou-me, mesmo sentindo que naquele momento as únicas certezas que tinha era que não havia mais exames a obrigarem-me a estudar pela noite dentro e podia tirar umas belas férias. À uma da manhã fomos buscar o pai ao Aeroporto. Trazia de prenda uma t-shirt do Peter’s Café do Faial e vinha desgostoso por ter perdido a festa, mas a mãe prometeu que organizava outra, porque a minha mãe gosta muito de festas e aproveita todos os pretextos.


Já quase de madrugada escapuli-me com o Zé para casa dele e passámos o resto da noite a acabar de dissipar a névoa da tristeza e a convocar a alegria. Pusemos a tocar, baixinho, por causa dos vizinhos, um CD do Sérgio Godinho que se ouvia muito na casa dos meus pais e que tem uma canção que diz “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida” e ficámos para ali, lamechas, aninhados e satisfeitos, a resistir ao sono como fazem as crianças quando estão felizes e querem prolongar o dia.
- Que dia este! – disse eu – Tenho a sensação de ter passado por todos os estados de espírito que conheço. Agora, aqui contigo, depois de todas as festas sinto-me finalmente aliviada, feliz, convencida da beleza da vida. Mas também estou a sentir uma ponta de medo. Se esta felicidade acaba? E se não conseguir arranjar trabalho? E se arranjar mas não for capaz de o fazer?
- Não tenhas medo, eu estou aqui contigo, estamos juntos, aproveita esta felicidade sem mácula que estamos agora a viver, ela pode servir-te de provisão para tempos mais exigentes. – respondeu ele. E apesar de me parecer uma resposta muito paternalista, soube-me bem, decidi deixar por um dia que o meu namorado tomasse conta de mim e adormeci tranquilamente ao seu lado.


Tinha 23 anos, um curso superior,um namorado amoroso, boas amigas e amigos, uma mãe festeira, um pai capaz de arranjar tudo, e uma família espectacular, com um irmão e vários primos do contra mas muito queridos.